sexta-feira, 15 de julho de 2016

Episódio de hoje: Estratégias para destruir o Sabotador

Para ler ouvindo "High Hopes" - Pink Floyd

Era a terceira vez que eu parava para vomitar. Não sei, mas voltar àquele lugar me deixava enojada. Talvez pelo cheiro, ou pelos gritos, ou, até mesmo, pela energia que estava no ar, fazendo com que eu lembrasse de todas as dores e das coisas ruins que me aconteceram, e, principalmente, me fazia lembrar da última vez que estive aqui. 

P: Você aqui?! - Falou um dos Príncipes das Trevas - Veio entregar as armas de novo, Fraca? 
L: Não. Vim falar com você. Diga a ele que estou aqui, e quero lhe falar. - Falei alto, tentando não escutar os gritos ao meu redor. 
P: Por favor, madame! - Ele falou se curvando e fazendo reverência debochadamente - O senhor sabia que você vinha. 


Seguimos para o Castelo de Ouro e me lembrei o quanto ele era lindo. Passamos por corredores, e, por trás de cada porta, ouvia um gemido diferente. Nos esbarramos com uma mulher que, aparentemente, havia fugido de algum dos quartos. Ela caiu nos meus pés e gritou desesperadamente "Me ajude! Por favor, me ajude!". Os Dementadores chegaram logo depois, sugando todas as suas energias. Um deles veio até mim e começou a sugar as minhas também. Caí de joelhos sentindo todo o resto de felicidade que existia em mim se esvair. Tonta, ouvi o Príncipe das Trevas dizer "É visita real, ele não vai gostar de saber que fez algo com uma coisa dele". Sem forças, sussurrei "Eu não sou uma coisa e muito menos dele..." 
Senti o Príncipe me levantar pelos braços, mas não conseguia ficar em pé. Ele me sacudiu e eu vomitei mais uma vez. Ele colocou meu braço sobre seus ombros e entramos em um corredor cheio de mulheres, que cantavam uma canção que me fazia chorar, mas não conseguia identificar qual era. Elas dançavam com véus de várias cores e, quando íamos passando por cada uma, elas sussurravam no meu ouvido coisas como "Fraca", "Perdedora", "Quando vai descer de vez?", "Eu quero te machucar", "Quero te ver sofrer"... 
Chegamos à Sala Real do Castelo de Ouro e senti o meu sangue pulsar pelas minhas veias, meu coração acelerou como se tivesse levado um choque e eu já não precisava mais da ajuda do Príncipe das Trevas para caminhar. 
Enquanto caminhava, ouvia os cochichos e risos de todos que estavam na sala. Olhei ao redor e nada havia mudado, eram os mesmos príncipes, guardas, legiões e escravos. 


S: Um bom filho à casa torna! Não é essa a frase de efeito que criaram com base naquele livro cheio de mentiras, para que toda vez que um filho nos deixasse, se arrependesse e voltasse, justificar as merdas que ele fez? Eles ainda dão um ponto de atenção ao "bom", mas fico sempre a me questionar: um BOM filho deixa mesmo os seus pais? HAHAHAHAHA! Deixa, né? Olha onde estamos... - Falou o Sabotador, levantando do trono de ouro e sendo mais sarcástico do que o normal. 
L: Não sou sua filha. Na verdade, não temos ligação nenhuma. Nem sua serva sou! Além de velho, tem ficado louco? - Falei sorrindo e no mesmo tom sarcástico que o dele. 
S: Mas poderia ser, o que deixa claro que você sempre faz as piores escolhas, mas isso você sabe muito bem.
L: Bom, eu não tenho tempo a perder... - Neste momento, comecei a tirar toda a minha armadura, joguei a espada e as cartas no chão. 
S: Dessa vez, você desistiu mais cedo... Sabe que não poderia me enfrentar, não é? 
L: Não, eu fiz isso por mim. Aprendi a lição: não devo lutar por coisas que não valem a pena... 
S: Então, está dizendo que o seu Noah não vale a pena?
L: Não, não vale. Assim como eu não valho para ele. 
S: Que interessante... - O Sabotador desceu do altar, parou na minha frente e olhou dentro dos meus olhos - Está muito fácil. Da última vez que esteve aqui, chorou copiosamente, pediu pela vida de Zé... O que mudou dessa vez?
L: Como disse antes, eu aprendi as lições. Desistir também um ato de coragem e... 
S: Você é fraca! É por isso que você desiste. Não me venha com frases de efeito, que Ele, supostamente, O Todo Poderoso, diz para te confortar. Acha mesmo que vai passar pelas coisas e não vai pagar, não vai sofrer, não vai sentir? Do lado dele sempre foi assim. Eu sei como se sente, eu já estive do seu lado também. Não te incomoda o fato de lutar, lutar, lutar e seu carrinho nunca sair do lugar? 
L: A colheita vai chegar, as coisas boas também virão. 
S: HAHAHAHAHAHAHAHAHA! Você me faz gargalhar! Mesmo depois de séculos, eu ainda vejo ele fazer as mesma promessas "Sirva a mim, passe pelas provas, seja obediente e terá um lugar no céu..." - O Sabotador falou com a voz imitando o Cara da Roda Gigante - Ele não quer que você viva! Ele te tira tudo o que é natural, o que a carne implora, o que é normal. Você deixa de viver na esperança de um futuro que não existe, de um céu que não existe. 
L: Onde estamos? 
S: O quê? Como assim? Estamos na minha casa! 
L: Onde é? - O Sabotador me olhou sem entender os questionamentos.
S: No inferno, no melhor lugar de todos os mundos. 
L: E o céu não existe? - O Sabotador abriu a boca e antes que pudesse falar continuei - Não, você não precisa falar nada, não tente me convencer. Eu já escolhi meu lado há muito tempo, quando desci as águas, quando conheci, verdadeiramente, o Cara da Roda Gigante. 
S: Você é uma perdedora que, se depender de mim, não vai conseguir nada. Sabe, sorri ao ver você chorar implorando pra ficar com ele... E não vai acontecer, você perdeu.
L: Bom, eu reconheço, perdi essa batalha... 
S: Mais uma! Claro, não foi tão divertida como na outra temporada, onde te vi sangrar... Foi realmente delicioso.
L: Sim, mais uma - Cheguei mais perto do Sabotador e olhei dentro dos seus olhos - Mas não esqueça, a guerra não acabou, e eu não tenho medo de você. Quem olha por mim não dorme, e, enquanto tiver vida, eu jogo do outro lado. - Tirei do bolso uma fita vermelha, desfiz o laço e cortei-a no meio - Acabou, seu laço foi desfeito. Até a próxima! Afinal, eu sei que você não vai desistir de mim. 

Virei de costas e tentei sair mais rápido possível daquele castelo. Ouvi o Sabotador me xingar e me jogar pragas. Ao sair completamente do castelo, tomei o sangue do Cara da Roda Gigante para que, quando voltasse, não carregasse comigo toda aquela carga negativa e maldições. Tudo isso eu deixei lá, no inferno. 
Após caminhar por algumas horas, senti a mochila pesar. Sentei no chão do deserto e chorei copiosamente. 


L: Eu não tenho mais forças... - Sussurrei. 
C: Tem sim. Eu estou orgulhoso por você. - Abri meus olhos e já estava em um campo florido. Do meu lado, O cara da Roda Gigante sorria. 
L: Não foi fácil dizer que o Noah não valia a pena. Não foi fácil voltar lá. Estar no inferno é como reviver todos os seus erros, e a sensação é como se estivesse com balas no peito. Eu não quero mais voltar lá. 
C: Eu não posso te garantir isso. Como você mesmo disse, estamos em guerra, ela não acabou... 
L: É difícil abrir mão de algumas coisas... 
C: Escolhas. Você está abrindo mão de coisas antigas e está abrindo espaço para coisas novas - O Cara da Roda Gigante tirou minha mochila das costas - Você trouxe todas as peças? 
L: Sim - Falei desanimada. 
C: Vamos, levanta, temos um carro pra consertar... 
L: Eu quero ficar um pouco mais - Deitei na grama e olhei para o céu - Faltam 3 dias para Oblivion terminar e o que eu mais quero é descansar nesses dias... Mas o Senhor pode ir. Melhor, deve! Será que meu carrinho vai subir? 
C: Para o topo! 

O Cara da Roda Gigante saiu e eu comecei a chorar mais uma vez. Meu corpo doía, minha cabeça doía, meu coração doía. Eu perdi mais uma vez, desisti. "Ele sempre ganha", pensei. 
Coloquei as mãos nos bolso e senti um pedaço de papel e um tecido. Era um pedaço da fita vermelha, e uma das cartas que deveria ter ficado no inferno. "Não acredito!", esbravejei. Abri a carta que escrevi para o Comendador e li seu título: "A última Carta". Apertei-a sobre meu peito e chorei mais uma vez, fechei meus olhos e pensei: 

- O amor não acabou.

3 comentários :

Fútil Literata disse...

Gente! Tô boquiaberta! Que metáfora foda, Lara!
Só me diz qual postagem dá inicio a tudo isso, fui lendo aleatoriamente, acho que perdi algumas coisas.

Genial :*

Tânia Tavares disse...

Mulher, você broca.
Perfeiçãoo de mais.

Elisabeth disse...

Vim lendo desde o comecinho, aqui quietinha, acompanhando, pensando e contextualizando tudo até o momento, e caramba: pqp, Lara, como você é guerreira!
Pode ter certeza que eu sofri junto a cada texto, acho que até a cada expressão, imaginando cada lágrima e cada música, além de toda a saudade do Comendador. As manhãs, as noites, os momentos em que você chorou no ônibus...
Ás vezes eu odeio essa vida, seria tão mais fácil se a gente escolhesse quem ama, se a gente fosse sempre amado de volta. Ou talvez a questão seja essa, o prazer vem do que está difícil e é conquistado e a dor, sempre proporcional, vem quando a gente percebe que falhou de alguma forma. Mas a vida é assim, errar, bater a cabeça no muro, aprender novos caminhos, recomeçar e se for preciso, errar de novo, começar de novo.
E é exatamente por isso, por toda a sua humanidade, essa coragem de se abrir para o mundo, pagar os preços, a coragem para sofrer e principalmente a coragem para ser feliz, que fazem de você uma das pessoas mais incríveis desse mundo. Pode ter certeza, eu te conheço faz tempo e posso afirmar: acima de todas essas dores e lições da vida, você está progredindo muito como pessoa.
Você pode até mesmo achar por alguns momentos que o Sabotador possa estar vencendo, mas não, nunca, foi só uma batalha, você está muito bem acompanhada pelo Cara da Roda Gigante e tenho certeza que quando menos esperar, o seu carrinho vai estar no topo. Tudo no tempo dEle claro, mas enquanto isso, eu só vejo você se tornar mais inteligente e mais forte, e mais preparada para colher coisas boas.
Mesmo que discretamente, eu sempre vou estar aqui torcendo por você.
Beijão

Google Analytics Alternative